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Canais.com
MANIFESTO
A arte contemporânea é o primeiro de todos os exercícios de liberdade.
Não conhece limites e não obedece a regras. Não venera, não assiste e não aguarda. Parte para a acção com a pureza do desejo e é apenas ao desejo que obedece.
A sua única função é não ter função, e contudo, reserva ainda o privilégio de a poder ter.
Mas sendo o tudo e o nada, a arte contemporânea é também o reflexo de um quadro de referências. Um reflexo elaborado, ambicioso e absolutamente exclusivo da individualidade que a concebe.
E é por isso que sendo a mais livre das actividades humanas, a arte contemporânea está também irremediavelmente presa a uma experiência e a uma ética, e nunca poderá deixar de as reflectir, por mais distorcidas que se apresentem.
O seus alicerces revelam sempre uma visão do mundo. Revelam uma forma de encarar a vida e um impulso de a melhorar. Como se ao deixar simplesmente actuar a sua natureza, o criador se esforçasse por colocar a própria existência um pouco mais de acordo com aquela fugidia percepção que é o intuir do seu sentido.
Nesta medida, a arte contemporânea corre ao lado dos fenómenos da fé, das religiões e dos sistemas políticos, mas num plano que não pode deixar de ser de absoluta irresponsabilidade. Não há mandatos e não há revelações.
E deste modo, a arte contemporânea pode ser muito mais e muito melhor do que um simples vale-tudo. Reflectindo a generosidade ou a falta dela, espelhando o individualismo mais feroz ou a mais altruísta das éticas, ela encontra na admiração do outro o seu mais legítimo complemento. E com a admiração se compraz ou não, mas com ela convive a cada dia, num insondável regime de afectos, que a renova e que a reorienta.
O sentido de justiça, a exortação das minorias, ou a procura do entendimento
entre os homens são matérias que verão os seus reflexos na arte contemporânea. Mas não é menos arte o simples celebrar da respiração.
E para atingir estes objectivos, a arte contemporânea apela a todos os sentidos e convoca todos os suportes. O papel não é mais nobre do que o electrão e a pedra não é mais verdadeira do que o plástico.
Cada tradição convoca também a sua continuidade e não há no seguir das tradições qualquer prejuizo. A pintura não morreu e o romance não morreu. Não morreu a quadra popular e não morreu a expressão artesanal. As tradições valem a exacta medida daquilo que inspiram.
Dizer então que vale tudo, é pouco. Mas tudo vale. E cada exercício de arte contemporânea não é nem mais nem menos obra de arte, se exibir uma ruptura com a sua tradição mais próxima ou se deixar de o fazer. Ela é tanto mais obra de arte, quanto mais constituir a afirmação de uma individualidade.
E é na afirmação da individualidade que a arte contemporânea atinge a sua plenitude.
Finalmente, sem que para tal se orientem de forma deliberada quaisquer atitudes, assim se encontra na mais livre de todas as tarefas humanas o mais extraordinário regulador da existência. A arte contemporânea poderá ser a solução para muita tristeza, muita injustiça e muito desespero. A arte contemporânea tem tudo o que é necessário ter para nos manter bem longe das tentações do absoluto.
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